segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Esculhambado por Bocage, nosso primeiro compositor


Em meio a tantos nomes de compositores que hoje são conhecidos no Brasil e fora dele, é importante ressaltar Domingos Caldas Barbosa, poeta carioca do século XVIII, o nosso primeiro compositor popular oficialmente documentado. Conhecido pelos seus lundus e modinhas que, para além das ruas e da elite no Brasil, deu a conhecer em Lisboa cantigas onde, segundo alguns, o caráter do povo brasileiro já transparecia claramente".

E com o sucesso conquistado, mesmo sem registro radiofônico ou discográfico - óbvio!- Caldas Barbosa despertou a ira erudita e recaldada da colônia, como a do Dr. Antônio Ribeiro dos Santos, referida no livro 'A história sexual da MPB', do pesquisador musical Rodrigo Faour (2006):

" Hoje só se ouvem cantigas amorosas de suspiros, de requebros, de namoros refinados, de garridice. Isto é com que embalam as crianças; o que ensinam aos meninos; e o que cantam os moços e o que trazem na boca donas e donzelas. Que grandes máximas de modéstia e temperança, e de virtude aprendem nestas canções. Esta praga é hoje geral, depois que Caldas começou a por em uso os seus romances e versejar para as mulheres (em torno de 1763). Eu não conheço um poeta mais prejudicial à educação particular e pública do que este trovador de Vênus e Cupido" .

O escândalo acima refere-se a versos como estes:

Doçura de Amor
(Caldas Barbosa)

Cuidei que o gosto de Amor
Sempre o mesmo gosto fosse,
Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.

Gentes, como isto
Cá é temperado,
Que sempre o favor
Me sabe a salgado:
Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura,
Oh! se tem! tem.
Tem um mel mui saboroso
É bem bom, é bem gostoso.

As ternuras desta terra
Sabem sempre a pão e queijo,
Não são como no Brasil
Que até é doce o desejo.

Ah nhanhá venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura
Que é Amor de Brasileiro.

Os respeitos cá do Reino
Dão a Amor muita nobreza,
Porém tiram-lhe a doçura
Que lhe deu a Natureza.

Quanto a gente tem nhanhá *
Que lhe seja bem fiel,
É como no Reino dizem
Caiu a sopa no mel.

Se tu queres qu'eu te adore
À Brasileira hei de amar-te,
Eu sou teu, e tu és minha,
Não há mais tir-te nem guar-te.

O poeta português Manoel Bocage também não simpatizava com os modos das modinhas de Caldas Barbosa na Corte de D. Maria I, chegando a publicar versos de escárnio sobre a música do brasileiro. A critica de Bocage pesava sobre a qualidade dos versos e nao sobre o suposto erotismo.
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* Tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos

Imagem: Estátua do Bocage, 1871, Praça do Bocage, Setúbal.


domingo, 5 de outubro de 2008

Abre alas para o lundu

A música de um país diz muito sobre sua gente e a nossa é a mais "perfeita tradução" da pluralidade de culturas e subculturas de todas as influências que recebemos de nossos colonizadores, desde as primeiras expressões musicais conhecidas no Brasil, a Modinha e o Lundu.

Com características herdadas da poesia árcade e com algo trovadoresco, a Modinha era a música ouvida no Brasil Colônia e o Lundu, dança africana trazida pelos escravos, posteriormente também cantado, e ambos acompanhados por uma guitarra de arame.

Embora o primeiro nome registrado como cantor, compositor e poeta do que hoje chamamos música popular tenha sido o mulato carioca Domingos Caldas Barboza, por volta de 1740, antes dele ainda na Bahia, o poeta Gregório de Mattos, conhecido como Boca do Inferno, já fazia suas sátiras e em forma de música ao ritmo do lundu, ritmo que escandalizava a elite portuguesa, pois ao ouvir sentia-se em um bordel ou com mulheres de má fama.

Mas o "estrangeiro" já se encantava com tal ritmo, como o inglês Lord Beckfor: "Aqueles que nunca ouviram este original gênero de música ignoram as mais feiticeiras melodias que já existiram desde os dias dos sibaritas. Imaginamos estar ingerindo leite e estamos admitindo o veneno da volupia no mais íntimo recesso de nossa existência".

E foram estes gêneros musicais, que depois de deixar as ruas e as senzalas, fizeram sucesso na Côrte, aqui e Além-mar, que deram origem a nossa Música Popular. A Brasileira veio com Chiquinha Gonzaga, já em 1899, ao compor 'Ô Abre Alas', uma mistura que, segundo a própria, era o ritmo marchado que os negrosimprimiam às músicas bárbaras qeu cantavam, enquanto avançavam pelas ruas entre volteios e requebros.

Vieram assim o maxixe, o samba, o choro e todos os outros ritmos e estilos que fazem hoje a Música Popular Brasileira.
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Imagem: Dança do lundu - 1825 - Johann Moritz Rugendas (1802-1858)



Imagens de Chiquinha Gonzaga - Música 'Lua Branca', de sua autoria, cantada por Verônica Sabino

sábado, 4 de outubro de 2008

O fado brasileiro e a sambista portuguesa

O Brasil não é só samba, Portugal não é só fado e este não é um blog apenas sobre música.
Pretende-se aqui falar sobre pontes (isso, pontes) em comum entre estes dois - ou mais - países lusófonos. Um Fado Tropical, uma "linda mulata com rendas do Alentejo".

A música brasileira tem em sua origem a modinha e o lundu, este trazido pelos escravos a bordo dos navios negreiros – “Estamos em pleno mar ... ” , como não pensar em Castro Alves? Já em Salvador, capital da colônia, em finais do século XVII o poeta satírico Gregório de Mattos, o Boca do Inferno, compunha, cantava e tocava o lundu - uma dança alegre, de versos satíricos e maliciosos, considerada indecente e proibida pelas autoridades. Esta ginga musical africana, às vezes dolente e triste, acompanhada dos versos de escravos deu origem aos primeiros gêneros musicais no Brasil, como choro, seresta, maxixe e samba.

Segundo alguns historiadores, como José Ramos Tinhorão, essa música teria sido levada para Portugal, “no peito de um marinheiro que, estando triste, cantava”, tornando-se a maior expressão musical do país.


Se o fado, maior expressão musical de Portugal, é oriundo do Brasil - há controvérsias! - nossa mais famosa cantora, Carmem Miranda, é ... portuguesa, apenas por um atraso de "um ano e oito dias", quando a família embarcou para o Brasil após o seu nascimento, segundo Ruy Castro, seu biógrafo oficial.

Nessa triangulação de países e culturas, temos seguramente a África, e nela cabem a melancolia do fado e a alegria do samba. Se o samba é de roda, canção ou dos becos dos morros, o fado é castiço, vadio , “embuçado” e se perdeu, no bom sentido, pelas vielas de Alfama, para ganhar o mundo.

Há outros paralelos sobre essa gente que chega ou parte pelo Atlântico, com suas histórias, revoluções, arte, música, poesia, cultura e costumes. As nuances entre as cores vivas do Samba e as sombras do Fado.

* Imagem: Fado Romantique - oil on canvas - Maryse Casol - 2007
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Fado Tropical
Chico Buarque - Ruy Guerra/1972-1973
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
"Sabe, no fundo eu sou um sentimental

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além da sífilis, é claro)*
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito

É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta

Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
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* trecho original, vetado pela censura
1972 © by Cara Nova Editora Musical Ltda